CUBA
A Havana que poucos viram
Apesar da pobreza, Cuba é modelo
em educação, saúde e segurança. Todas as crianças estudam em escolas de tempo
integral e 99,8% dos cubanos são alfabetizados.
Nos quatro dias em que esteve em
Cuba, a missão gaúcha comandada pelo governador Tarso Genro se hospedou no
Meliá Havana, um dos melhores hotéis da cidade, visitou órgãos oficiais e
circulou pelo chamado “casco histórico”. Conheceu as obras do Porto de Mariel e
a Escola de Cinema em San Antonio de Los Baños. Não houve tempo para uma
incursão da comitiva pelas ruas mais degradadas de Habana Vieja, pelas quais
Zero Hora circulou na terça-feira, depois que Tarso embarcou para Paris.
O governador conhece a realidade
dessas regiões e várias vezes a mencionou durante sua estada. Tarso, que em
janeiro do ano passado esteve em Cuba nas férias, também está bem informado
sobre a realidade dos cubanos que vivem em situação extremamente difícil e
atribui os problemas ao bloqueio econômico liderado pelos Estados Unidos, que
já dura 50 anos.
Os prédios degradados pela ação
do tempo, do salitre e da falta de manutenção podem ser vistos e fotografados
por qualquer turista que visite Habana Vieja. Mas é quando se sai fora do
roteiro turístico assinalado nos mapas que se percebe a pobreza em toda a sua
extensão. São ruas em que nenhum prédio passou por restauração nos últimos
anos, e os moradores se amontoam em verdadeiros cortiços. As sacadas com gradis
de ferro, que lembram o estilo das construções parisienses, estão carcomidas
pela ferrugem.
O deputado Alexandre Postal
aproveitou uma brecha na agenda da comitiva para conhecer essa Cuba com a qual
os turistas frequentadores das praias de Varadero não têm contato.
– Fiquei chocado – resume Postal.
Os cortiços contrastam com hotéis
de Varadero e mansões do bairro de Miramar, ocupadas por embaixadas e
estrangeiros. Em algumas casas, expropriadas à época da revolução, funcionam
clínicas médicas. A excelência da medicina é um dos orgulhos dos cubanos,
inclusive dos que criticam o regime pela falta de liberdade e dificuldade de
acesso a alimentos e bens de consumo durável.
Além da saúde, o país também é
considerado modelo em educação. Todas as crianças estão na escola em tempo integral,
a taxa de alfabetização é de 99,8% e o Ensino Superior é totalmente gratuito
para os cubanos. Apesar da pobreza, é um país seguro para os turistas, graças
ao forte esquema de repressão aos delitos de qualquer tamanho.
Dois mundos em um mesmo país
Com a autorização para que
prestadores de serviços montem seu próprio negócio – pagando uma taxa ao
Estado, naturalmente – está nascendo em Cuba, com autorização do governo, uma
classe emergente que subverte os ideais de igualdade da Revolução. À margem do
Estado, agindo na clandestinidade, uma classe diferente já existia, formada por
prostitutas, vendedores de charutos no mercado negro e achacadores de turistas.
A abertura para que diversas
atividades possam ser exercidas de forma autônoma foi a forma encontrada pelo
governo para conter a insatisfação dos que não se contentam em ganhar o salário
mínimo do Estado e, ao mesmo tempo, reduzir o número de dependentes da ração
básica fornecida pelo poder público. Quem opta por ser manicure, por exemplo,
em vez de trabalhar em uma fábrica de charutos, abre mão da libreta fornecida
pelo governo para a aquisição de produtos essenciais.
O serviço de táxis é a mais
visível dessas atividades “privadas”. O turista pode escolher entre tomar um
táxi da estatal que explora o serviço ou de um particular. O carro do serviço
oficial é mais novo, tem taxímetro, motoristas uniformizados e, não raro,
ar-condicionado. Mas não existem em quantidade suficiente para atender à
demanda de turistas que se multiplicam em Havana.
Andar em um táxi particular é uma
epopeia que exige certa coragem. Alguns são tão antigos que estão,
literalmente, caindo aos pedaços. Ladas importados da União Soviética nos anos
70 circulam pelas ruas de Havana transformados em táxis. Nem todos têm cinto de
segurança.
Há um outro tipo de transporte
autorizado pelo Estado para suprir a deficiência causada pela retirada dos
velhos “camelos”, ônibus muito pesados que estragavam o pavimento das ruas e
eram excessivamente poluidores. Pequenos caminhões foram adaptados para
transportar passageiros na carroceria, protegidos por um toldo.
Fonte: OLIVEIRA, Rosane de. Cuba:
a Havana que poucos viram. Política. Zero
Hora. Porto Alegre, 11 nov. 2012, p. 8
CUBA
Uma mancha na imagem da ilha
Pelas leis cubanas, a
prostituição é uma atividade proibida. Volta e meia, os policiais fazem batidas
em hotéis para retirar as moças que se refestelam na recepção à caça de um
turista disposto a pagar por uma relação sexual, por uma noite em seu quarto ou
para ter uma “acompanhante” pelo tempo que desejar. A ousadia das roupas e o
excesso de maquiagem permitem identificar com facilidade quem são as chamadas
“jineteras”, que, apesar da proibição formal, abordam os turistas sem maior
dificuldade. No malecón, o calçadão à beira mar, protegido por um muro, o
assédio é permanente.
Entre os homens que participaram
da comitiva do governador Tarso Genro, foram comuns os relatos de assédio por
parte das prostitutas. Todos os que contam seu caso garantem ter resistido. Um
deles relata a história de um conhecido que pagou 200 CUCs (mais de US$ 200 ou
cerca de R$ 407,04) para ter uma cubana em sua cama no próprio hotel. Valor
superior ao que ganha em um ano um médico, professor ou engenheiro, embora não
se possa fazer uma comparação direta porque os salários são pagos em pesos
cubanos, e os preços para os nativos são diferenciados. Se assim não fosse,
ninguém teria eletrodomésticos como geladeira.
Como o país não tem motéis, a
solução encontrada pelas prostitutas foi o uso da própria residência ou de
casas particulares para o sexo com hora marcada. Por alguns CUCs, os donos da
casa saem para a rua e deixam a cama liberada.
No livro Havana, primeiro da
série Expedições Urbanas, o jornalista Airton Ortiz conta um caso que ilustra a
conivência das famílias com a prostituição. Ortiz relata que foi abordado por
uma jovem em uma ruela de Habana Vieja. A moça sugeriu que ficasse com ela e
fossem a uma casa particular dessas que alugam quartos. Ante a indecisão do
brasileiro, a jovem sugeriu que fossem à casa dela. Interessado em conhecer o
interior dos cortiços, Ortiz entrou. Estavam na sala a irmã, um cunhado e um
bebê, filho da que se oferecia para ser seu par. A moça o levou para conhecer o
lar. A irmã fez a proposta: por 20 CUCs liberavam a casa. O programa custaria
outros 20. O jornalista resolveu testar até que ponto as pessoas iriam por uns
trocados. Disse aceitar o preço, mas queria ficar com a irmã, a casada. O
marido levantou da poltrona, olhou para o estrangeiro, pediu licença e saiu
para a rua. Para encurtar a história, Ortiz alegou que não tinha todo o
dinheiro, prometeu voltar na manhã seguinte, deu os 20 CUCs como uma espécie de
adiantamento e recomendou que comprasse leite para o bebê e um litro de rum
para o marido. E foi embora sem fazer o programa, mas com uma ideia das
humilhações a que as cubanas se submetem por dinheiro.
O deputado Postal, dois
assessores e o secretário Maurício Dziedricki foram testemunhas de como funciona
o agenciamento de prostitutas e o assédios dos transportadores de turistas em
bicicletas adaptadas e nos táxis. Eles passeavam pelo Centro Histórico em um
final de tarde quando, depois de recusarem várias ofertas, decidiram contratar
duas bicicletas para passear.
Pediram para ir à catedral, e o
rapaz que pedalava a bicicleta transformada em táxi sugeriu que antes fossem à
“casa de las chicas”. Como não quiseram, se ofereceu para levá-los a um
fornecedor de charutos. Foi a oportunidade de entrar em ruelas que nenhum deles
teria coragem de entrar sozinho. Viram cenas de pobreza por todos os lados.
Em outra noite, um grupo queria
ouvir música típica cubana em um clube. Na chegada, os homens foram abordados
por jovens que se ofereciam para ser acompanhantes. Eram cerca de 20 em frente
à casa noturna, procurando companhia.
Fonte: OLIVEIRA, Rosane de. Cuba:
uma mancha na imagem da ilha. Política. Zero
Hora. Porto Alegre, 11 nov. 2012, p. 9.
CUBA
Como seduzir uma turista
Em frente ao Capitólio, um dos
prédios mais fotografados de Havana, um casal se aproxima, o homem abre um
sorriso e pede:
– Me fotografe que hoje é um dia
muito especial. Minha mulher está fazendo aniversário e vamos ter um bebê.
Bato a foto sabendo que depois
ele vai me pedir dinheiro. Não pede. Pergunta de onde sou e, ao ouvir a palavra
“brasileira”, pergunta se conheço Compay Segundo, o grande músico. Sim,
conheço, respondo.
– Então tens que conhecer o bar
que Compay Segundo frequentava. Fica perto daqui.
Caminho ao lado dos dois tirando
fotos e fazendo as contas de quanto vai me custar tanta simpatia. Ele vai
mostrando os prédios deteriorados e diz que os turistas só conhecem o lado
bonito de Havana. No bar, me apresenta El Capitán, o garçom, e mostra a
guitarra, o chapéu e as fotos de Compay na parede. Sentamos. Peço que escrevam
os nomes e o endereço em um papel. Ela escreve com caligrafia de professora:
Elvira Montesino e Roberto Thomas Cruz.
Roberto, que se identifica como
professor de educação física, me oferece charutos a preço de barbada. Respondo
que não me interessa porque não fumo. Sugere que eu experimente o coquetel
preferido de Compay. Digo-lhe que não vou beber álcool às 11h da manhã. Ele não
se dá por vencido. Pede que tome o coquetel sem álcool, o mesmo da mulher
grávida. Interessada em saber mais sobre a vida em Cuba, concordo em
oferecer-lhes os refrescos. Roberto recomenda alguma coisa para comer. Recuso, porque
ainda é muito cedo. Peço a conta, e ele me pede uma ajuda para o enxoval do
bebê.
Quando a conta vem, descubro o
preço de tanta gentileza: 56 CUCs (US$ 62,22 ou R$ 126,63). Digo ao Capitán que
ele deve ter se enganado, que conheço o sistema de moedas deles e que cinco
coquetéis não podem custar o preço de um almoço para três. Roberto se desculpa:
El Capitán me cobrou como se fosse um coquetel de bebida alcoolica, mas vai
refazer. Volta com a conta reduzida a 20 CUCs. Pago, agradeço a gentileza e digo
que estava tão caro que não sobrou para ajudar no enxoval do bebê. Sem culpa,
porque sei que El Capitán fará a partilha.
Fonte: OLIVEIRA, Rosane de. Cuba:
como seduzir uma turista. Política. Zero
Hora. Porto Alegre, 11 nov. 2012, p. 9.
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